Xiitas FreeTardados

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

fanboy


Há algum tempo, fui convidado para um debate sobre  Software Livre e Software Proprietário em uma universidade.

Para falar sobre software livre, foi convidado o diretor do Serpro, Sérgio Rosa (eu ia poupar nome e empresa, mas eles mesmos anunciaram no site). Além disso ele estaria sendo auxiliado por ex-alunos da faculda de, já formados.

Para falar sobre software proprietário havia apenas eu.
 

Por que estou falando sobre isso depois de tanto tempo, ainda mais considerando que na época já havia escrito a respeito ?

Ocorre que devido ao meu artigo publicado no MeioBit, alguns novos links surgiram e, entre eles, uma comprovação adicional de que Sérgio Rosa estava misturando algumas coisas.

Vou resumir consideravelmente como ocorreu o debate : Primeiramente Sérgio Rosa iniciou, falando algo sobre questões de liberdade de informação, que infelizmente não recordo (vou evitar colocar opiniões sobre coisas imprecisas) Então foi minha vez.

Tenho uma apresentação muito bem preparada sobre o tema. Minha apresentação não se baseia em comparações entre softwares, mas sim no fato de que existe uma quantidade muito pequena de pessoas que realmente compreende o software proprietário e o software livre e entendem suas implicações. Meu artigo - Coisas que quase ninguém sabe sobre a Microsoft - bem como a rápida repercursão que este artigo teve nos últimos dias, demonstram bem o impacto dessa abordagem e permite que vocês imaginem o que ela causa em um auditório despreparado e pronto para linchar o vendedor de software.

fanboianatomy Em meio a minha apresentação, que citou vários dos pontos no artigo e outros mais comparando modelos de negócio livre e proprietário, Sérgio Rosa se retirou do auditório.

Após minha apresentação, Sérgio retornou e nos sentamos a mesa para iniciar o debate. Em seu primeiro comentário, Sérgio justificou o fato de ter se retirado da sala - disse ser um absurdo que alguém estivesse apresentando informações mentirosas para alunos universitários. Se o código fonte do Windows estava disponível, porque ele, que trabalha para o governo, nunca tinha visto ? Além disso as urnas eletrônicas não utilizavam Windows CE e o fonte nunca havia sido auditado (um destaque aqui, já volto neste ponto).

É óbvio que me pegou de surpresa. Quer dizer, não tão óbvio assim. Um palestrante experiênte já conheceria Sérgio Rosa pelo nome, mas não eu, estava esperando um debate de mais alto nível. Porém procurei ficar bem relaxado e solicitei o microfone para responder a essas questões, já que se tratavam de uma grave acusação.

Destaquei dois fatos : Primeiramente não afirmei que o governo Brasileiro tem, mas sim que poderia ter acesso ao código fonte do windows no momento que desejasse, a proposta encontrava-se de pé. Tal fato estava devidamente documentado no site da Microsoft.

Quanto as urnas eletrônicas, havia ampla documentação em links web citando sua construção com Windows CE e a auditoria havia ocorrido - segundo a própria Microsoft - além do fato da própria estrutura do Windows CE facilitar este tipo de atividade.

Sérgio recuou. Acho que pela grande diferença de idade ele não esperava que eu fosse encara-lo de frente como fiz. Afirmou, então, que a auditoria do Windows CE permitiu a análise do código fonte das urnas por apenas 4 horas, o que é absolutamente impossível de ser feito e não há como discordar. Achei interessante que no inicio ele tivesse afirmado nunca ter tido acesso ao fonte e posteriormente ter citado detalhes como esse da auditoria. Fato curioso.

Nesse ponto ele me pegou. Afirmei o que eu sabia : Não existe nenhum limite de prazo nas opções que a Microsoft oferece para análise de fonte. Porém eu não possuia nenhum link no qual pudesse estar me embasando a respeito deste assunto. Eis que, como citei, o link surgiu nos comentários do atual artigo que escrevi : http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/cadernos/cid280820021p.htm

Este link demonstra que Sérgio tinha, parcialmente, razão. Isso porque mostra que realmente a forma como aconteceu a auditoria de código das urnas foi totalmente inadequada. Porém também mostra que essa inadequação se deu devido a restrições do próprio TSE e não da fabricante, Microsoft.

Então, mais uma vez, a informação transmitida ao público universitário encontrava-se distorcida, mas não era exatamente eu que estava distorcendo a informação transmitida.

Duas coisas que me chamaram muito a atenção nas observações e comentários do Sérgio Rosa :

Criação de drivers

Ele contou uma longa história dizendo ter tido um problema, certo dia, com um driver de acesso wi-fi em um hotspot no aeroporto e todos próximos ficaram dizendo para ele arrancar o linux e utilizar windows.

Solicitou então a seus funcionários no Serpro que resolvessem o problema, pois ele não podia mais passar aquela vergonha.

Depois de um dia de trabalho e pesquisas em fórum, os funcionários do Serpro conseguiram criar um driver para resolver o problema do acesso wi-fi no Linux.

Minhas considerações sobre este exemplo :

- Isso não tem relação alguma com software livre. Ambientes proprietários permitem criação de drivers normalmente.

- Funcionários públicos executaram um trabalho particular, levando um dia de trabalho para isso. Isso é mão-de-obra livre ?

- O cidadão comum não teria acesso a estrutura do Serpro para fazer uma solicitação como esta, nem saberia resolver o problema por si só (como Sérgio não soube)

- Ambientes proprietários já teriam o driver pronto. No caso do Windows, se tal driver não estivesse instalado poderia ser baixado facilmente através dos recursos de update do site da Microsoft.

Utilização Comercial

Em toda a apresentação destaquei que se fosse a questão de ter que escolher entre software livre e proprietário, então ambos deveriam ser comercialmente viáveis. Será que o software livre é comercialmente viável por si só ou apenas viável quando apoiado em outras iniciativas proprietárias ?

Ao ser interrogado, não por mim, mas por um aluno que estava assistindo a palestra, a citar de que forma o software livre poderia ser comercialmente viável, Sérgio simplesmente disse que não interessava se era comercialmente viável ou não, que isso não importava em nada.

O que pode ser livre ?

Depois de parte do debate Sérgio acabou concordando que nem todos os softwares poderiam ser livres. Baseou seu argumento de abertura de código no fato de que o sistema operacional já era algo extremamente básico, comum, necessário a todos e sem inovações tecnológicas, portanto seu código deveria ser aberto a estudos, para todos, mas que seria normal que servidores de bancos de dados, por exemplo, tivessem seu código fechado e comentou a concorrência entre Oracle e SQL Server em uma comparação aos benefícios da concorrência entre *nix e windows (obs.: eu nunca disse nada contra o benefício da concorrência)

Minhas considerações :

- Prezados, antes de me xingarem e aos meus familiares nos comentários deste post, leiam bem o texto e observem que quem disse isso tudo não fui eu, foi ele, que estava lá para defender o software livre.

- Preciso falar algo sobre a relação do que foi dito acima com as definições e idéias defendidas pelo software livre ?

- Dizer que o sistema operacional não possui mais inovações tecnológicas é como o funcionário do departamento de patentes que foi eternizado por ter dito "Já inventaram tudo, não existe nada mais a ser inventado !"

- Normalmente (e me orgulho disso), minha apresentação obtem conclusões bem próximas a essa por parte dos participantes. Não exatamente essa (claro, nem eu concordo com isso!), normalmente é possível ir além, mas tive pouco tempo de apresentaçao.

Após todo esse acontecimento, o Serpro publicou a seguinte notícia a respeito do debate em seu site : https://gestao1.serpro.gov.br/noticiasSERPRO/20060529_04

No site mais uma pérola, que me passou despercebida (acho) :

"Software é conhecimento e não produto. Não podemos vender conhecimento"

Ok, ok. Então acabem com todos os colégios e universidades particulares, já que conhecimento não pode ser vendido.

Alias, gostaria muito de saber se os herdeiros do Sr. Sérgio Rosa estudaram em instituições públicas ou particulares. Seria estranho falar contra a venda do conhecimento e por outro lado estar realizando a sua compra.

Interessante uma notícia como esta publicada em um site .GOV

obs: A primeira ilustração foi localizada no site Wigler, enquanto que a 2a foi localizada no blog WildBill 

Já Cotei

Se você gosta de software livre, pode comparar o preço de várias edições do Linux e comprar já a sua. Mas se você não gostou do que escrevi e está querendo fazer comigo o mesmo que o macaco e os zumbis de Fome Animal (o lado mal de Peter Jackson - R$ 9,90 ou 3x R$ 3,30) fizeram, então pode entrar na fila. O melhor mesmo, para não ficar na vontade, é ir sonhando com a minha morte, porque é o máximo que via conseguir.

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4 comentários:

Luis Santos disse...

Aloha Dennes!

O termo xiita não deveria ser banalizado. Xiitas de verdade têm um motivo. Irrelevante, mas acreditam nele. Não assumem a postura xiita apenas para manter o emprego.
Cervantes já descreveu o que é duelar contra moinhos de vento. Dom Quixote, pelo menos, tinha nobreza de ser louco, ou algo que o valha.
Uma coisa é discordar de preços altos da M$. Não gosto deles. Juro.
Outra, é ser obrigado a utilizar um produto que não é o melhor, nem o mais adequado, mas é o mais frequente. Geralmente imposto pelo cliente, o que em meu caso foi o governo (minuscula intencional) anos atrás, através do DNER. E que teve prejuizo anos depois, quando nem pôde fazer upgrade do próprio sistema desenvolvido. O ambiente M$ mudou, e o sistema foi mal elaborado. Quase poético! :)
Perdemos a concorrência, e depois paguei mais impostos para que o sistema fosse refeito. Se é que foi refeito. O lado bom da vida. :(
Aqui a proposta do software livre pode ser interessante, mas ainda falta muito para funcionar. É preciso melhorar, o conjunto da obra, antes de agitar as bandeiras ou disparar contra os moinhos.
Sobre debates, Cardoso comentou um, onde blogueiros foram sistematicamente massacrados, no estilo citado de "Velociraptor x Ursinhos Carinhosos". Parece que você se saiu melhor. Mas a máquina pública, que nós pagamos, vai usar a mídia, e todos os seus (nossos) recursos para manter o status quo, sua postura e os empregos deles.
A informação deve ser divulgada, para que as pessoas façam suas escolhas. Alguém me disse isso.
Aloha!
p.s. Pessoas estão lendo, acredita nisso?? :)

Dennes disse...

Oi, Luis !

Não acredito na postura do software livre apenas para manter o emprego. Infelizmente é um fenômeno social muito mais complexo e carecemos de especialistas para resolve-lo.

O ser humano não vive sem um objetivo, uma meta (vide João Simões Continua, de Origenes Lessa, fantástico).

Nos tempos atuais, com o fim da ditadura, todos os políticos se mostrando corruptos e o socialismo sendo derrubado, para quem trabalha com tecnologia o software livre vira um ideal bem palpável, dai a defesa na forma de FreeTardados, como a imagem da anatomia deles descreve.

Pois é, passei a acreditar que estão lendo depois dos 272 comentários que recebi em http://www.meiobit.com/artigo/coisas_que_quase_ningu_m_sabe_sobre_microsoft :)

Luis Santos disse...

Aloha Dennes!
Você não acredita, ele, seu principal debatedor, sim.
E lembre, um debate com um de um lado, e uma equipe do outro não é organização de um debate justo ou equilibrado, já no princípio.
Ele nem ouviu sua explanação, porque não lhe era interessante. Então não houve debate.
Espero que os universitários que assistiram sua apresentação tenham sido capazes de perceber isso.
Grande abraço e
Aloha!
p.s. Tenho visitas mas quase não comentários. Um dia melhora. Acho que sou um "paperback blogger"!!

Fernando Cima disse...

Caro Dennes,

O código fonte do Windows CE é fornecido junto com o produto, e qualquer pessoa pode auditar o fonte a qualquer momento. É só baixar o trial do site da Microsoft.

Abracos,

- Fernando Cima